O caminho da personalização

    Este é um texto retidado do livro Homem 70, de Sérgio José Shirato, que estava como exemplo em outro livro meu (Curso de Redação). E é incrível a mensagem que estas palavras trazem! Achei que é a melhor forma de desejar um Feliz Natal e um iluminado 2008 para todos meu amigos e leitores deste humilde blog.
    O texto cita dois trechos do livro O pequeno príncipe. Para quem tem ainda algum preconceito contra o livro, leia-o e depois deixe seu comentário. Mas faça-o com o coração e não com os olhos.
    Divirtam-se e boas festas! Grande beijo!
 

   

    O homem é um ser cuja vocação fundamental é ser pessoa: buscar sua unidade, sua liberdade, sua felicidade. Esta vocação é conquistada à custa de sofrimentos e de riscos, porque "quando a gente anda sempre para frente não pode mesmo ir longe"1.

                O homem é um ser que se personaliza através de uma constante evolução, de um contínuo caminhar, de uma contínua subida. O homem que aceita evoluir aceita correr uma série de riscos, exatamente porque o mundo dos outros nem sempre é paz, amor, receptividade. Quando tudo parece estar em ordem, pronto! Reaparecem problemas e, conseqüentemente, o desânimo2. O outro é alguém que encontro num processo igualmente difícil como o meu. As dificuldades com as quais me deparo em minha conversão para ser pessoa são as mesmas dificuldades que o outro encontra. Não estou diante de pessoas prontas; ao contrário, minha atitude é de fundamental importância para a personalização do outro. É na troca de experiências que mantemos, que encontramos a bagagem necessária para o longo caminho da personalização.

                Neste caminho, corremos riscos inúmeros. Mas correr riscos é condição necessária para quem quer crescer. Quem não sabe "ex-por-se", não chegará a ser pessoa, não evoluirá. Jamais atingirá a perfeição.

                Esta evolução significa exatamente a passagem do egocentrismo para o amor. Eu vivia só até que resolvi sair de mim mesmo para descobri o meu "outro-eu". Percebi a dificuldade de sair do meu planeta, porque ele era pequeno demais. Não havia aí lugar para duas pessoas. Mas percebi também que podia desembaraçar o meu pequeno mundo – jogar fora muita coisa velha que guardava durante o tempo de minha solidão. Constatei, então, que o meu planeta não era tão pequeno assim. Desatravancado, eu estava mais apto para amar de verdade. Compreendi que enquanto não me conhecesse um pouco mais, não poderia reconhecer como verdadeiro o mundo do outro, do tu. Senti necessidade de crescer em minha autoconfiança, de ter certeza do que eu queria, de tomar consciência de que o movimento de personalização  só tem pleno sentido quando atinge a pessoa do outro e sobre tudo quando eu me torno capaz de ser fiel a uma rosa.

                Descobri que "o essencial é invisível aos olhos. Só se vê bem com o coração"3. As aparências enganam, é preciso chegar ao íntimo de mim mesmo para poder chegar ao íntimo da pessoa amada. E quanto mais eu chego ao íntimo desta pessoa que eu quero atingir, tanto mais eu descubro as riquezas do meu próprio ser.

 

 


1-        SAINT-EXUPÉRY, E. 1976. O pequeno príncipe. Trad. de  D. Marcos Barbosa. 12. Ed. Rio de Janeiro, Agir. P. 18

2-        "A comunicação é mais rara do que a felicidade, mais frágil do que a beleza. Um nada a pode suspender ou quebrar entre suas pessoas (...): MOUNIER, E. 1964. O Personalismo. 2 Ed., São Paulo, Duas Cidades, p. 70.

3-        SAINT-EXUPÉRY, E. Op. Cit. p. 74.

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